Em 1948 a Citroën lançava um veículo para todos

Em 1948 a Citroën lançava um veículo para todos. E essa história envolveu guerra, urgência e até ovos!
Um carro para todos
Mais do que um carro, o 2CV foi um modo de vida. Ícone cultural europeu desde seu lançamento até hoje, o compacto da Citroën é – e sempre foi – cultuado não apenas por colecionadores, artistas e intelectuais, mas principalmente por toda uma geração que entendeu pela primeira vez o que era poder ter um meio de transporte individual, acessível, versátil e confiável. Um Citroën para todos.
Da urgência ao projeto
Representação máxima do que é ser um automóvel “cool”, o 2CV – ou “Deuche”, para os íntimos – teve um início de história pragmático, pois seu conceito era simples e urgente à época. Para Pierre Michelin, que substituíra André Citroën no comando da marca, o futuro modelo deveria permitir que as massas substituíssem o cavalo e a carruagem por um veículo robusto, útil e acessível. Ele precisava transportar quatro pessoas e 50 kg de bens agrícolas – sobretudo ovos, que não poderiam se quebrar durante a viagem – a uma velocidade de 50 km/h, inclusive sobre estradas lamacentas e não pavimentadas.
Os primeiros protótipos, criados por André Lefebvre (o gênio por trás do Traction Avant e do DS), deveriam ser revelados em outubro de 1939 – três anos depois de iniciado o projeto do TPV, ou Toute Petite Voiture. Mas o 2CV foi atrapalhado pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Dos cerca de 200 já montados, quase todos foram destruídos em bombardeios, e apenas quatro restaram, mantidos em segredo na França ocupada.
A estreia em Paris
Com fábricas destruídas, a Citroën manteve o desenvolvimento do 2CV às escondidas. Sua estreia ocorreu em 7 de outubro de 1948, no Salão de Paris, palco de uma Europa que estava prestes a ser reconstruída.
Sucesso instantâneo, o 2CV tinha fila de espera logo após a estreia. Era preciso esperar até cinco anos para levar um para casa, o que criou uma das primeiras situações em que o carro usado custava mais do que o novo, pois ninguém queria esperar tanto tempo.
Ao longo do tempo, outros países também produziram o modelo, como Reino Unido, Uruguai, Portugal, Espanha e até o Chile. Sua assinatura na história do automóvel já ganhava os primeiros contornos.
Motor e mecânica
À frente do motorista, um motor boxer de dois cilindros refrigerado a ar, com 375 cm³ de cilindrada e 9 cv de potência, acoplado a um câmbio manual de quatro marchas. Achou pouco? O fato é que, extremamente leve e com uma estabilidade muito acima da média, o 2CV era um carro divertidíssimo de ser pilotado, isso mesmo, pilotado. Tanto que seus sensíveis acréscimos de potência viriam com força a partir dos anos 70, quando o 2CV começou a sair com um bloco de 602cm³ e 33 cv.
Prático e versátil, o 2CV trazia suspensão independente nas quatro rodas, com longo curso. Na prática, isso era um aliado aos passeios suaves, enquanto a boa altura do solo não comprometia seu desempenho em terrenos irregulares. Não raro, ganhava corridas de concorrentes bem mais modernos e potentes, graças a este incrível resultado de suas suspensões.
Uma família de modelos
Além do 2CV, outros modelos nasceram de sua base mecânica. Um deles foi o simpático Dyane. Quase idêntico, incorporava uma estética mais tradicional e um prático design de porta traseira, quando comparado ao 2CV. Sua popularidade foi tal que se somaram quase 1,5 milhão de Dyanes entre 1967 e 1983.
Outro destaque é o Sahara. Em vez de uma configuração tradicional envolvendo diferenciais e embreagens, a Citroën simplesmente adicionou um motor montado na traseira para impulsionar as rodas traseiras e criar um 2CV 4×4. Genial, o carro tinha apenas um acelerador, uma embreagem e um câmbio para operar ambos os motores. Com pouco menos de 700 exemplares construídos, é item cobiçado por colecionadores atualmente.
Isso sem falar no Ami (1961-1978) e no jipinho Méhari (1968-1988), além do Fourgonette, de 1951.
Fim de linha e legado
Em 27 de julho de 1990, um 2CV em dois tons de cinza, apelidado de “The Duck”, saiu de linha na planta portuguesa de Magualde, encerrando a carreira do modelo 3.868.634 unidades depois. Se despedia não apenas como um veículo utilitário, mas como uma lenda.
Trinta anos após sua aposentadoria, é o Citroën mais produzido no mundo até hoje.
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Em 27 de julho de 1990, um 2CV em dois tons de cinza, apelidado de “The Duck”, sai de linha na planta portuguesa de Magualde, encerrando a carreia do modelo 3.868.634 unidades depois. Se despedia não apenas como um veículo utilitário, mas como uma lenda.
Trinta anos após sua aposentadoria, é o Citroën mais produzido no mundo até hoje.